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Jeferson De celebra indicação de ‘Narciso’ ao Prêmio Grande Otelo: ‘Um filme revolucionário’
Produção concorre na categoria de Melhor Filme Infantil da principal cerimônia do cinema brasileiro
Em uma das fases mais movimentadas de sua carreira, Jeferson De celebra mais um importante reconhecimento: poucos anos após conquistar os troféus de Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Direção por “M8 – Quando a Morte Socorre a Vida” (2019), o cineasta retorna ao Prêmio Grande Otelo do Cinema Brasileiro com “Narciso”, que concorre na categoria de Melhor Filme Infantil.
Em entrevista exclusiva à Ingresso.com, Jeferson refletiu sobre o momento vivido pelo audiovisual brasileiro, destacando os obstáculos enfrentados por produções centradas em narrativas negras para conquistar espaço nesse cenário:
“O grande desafio é chegar nesse público. O cinema, como um todo, está passando por um momento extremamente difícil de encontrar sua plateia, especialmente no pós-pandemia. A indústria ainda é difícil para o audiovisual brasileiro e, sobretudo, para histórias negras também. Cada vez mais artistas negros estão chegando na posição de fazer o seu primeiro longa, de conseguir exibi-lo nas telonas, mas ainda é delicado de alcançar as grandes distribuidoras”.
Na sequência, o diretor avalia que, apesar dos avanços conquistados ao longo dos últimos anos, a presença de realizadores negros em áreas de maior visibilidade ainda representa uma realidade distante. Para ele, o próximo passo é ampliar o alcance dessas obras por meio de boas histórias:
“No aspecto pessoal, muitas vezes eu digo que sou a exceção, então, por isso, ainda temos um problema sério. O fato de eu ser o único a estar em determinados lugares, colocar meus filmes nas principais redes de cinema, é difícil. Então resta sempre o desafio de contarmos histórias cada vez mais populares, sair do nosso nicho. Ou seja, produtores e diretores pretos criarem histórias pretas, mas para os brasileiros, todos e todas. Esse talvez seja o grande salto dos curtas para os longas-metragens: como eu posso contar essa história? Como eu posso ser generoso com plateias do Maranhão até Porto Alegre, de Goiânia ao Rio de Janeiro e São Paulo? Então, acaba tendo essa busca o tempo todo para dar minha contribuição, encontrar meu lugar (...) e, na verdade precisamos apenas de boas histórias, basta isso: narrativas bem contadas para ocupar uma sala”.
Por fim, Jeferson explica que “Narciso”, seu mais recente projeto, representa essa busca por novas formas de retratar figuras negras, priorizando enredos marcados por esperança, afetos e principalmente pelo direito de existir:
“O cinema brasileiro, muitas vezes, adora colocar a gente que é preto em situação de violência e de morte. Filmes como ‘M8’, ‘Narciso’ e ‘Carolina’ funcionam como um grito dizendo: ‘Eu quero viver, eu gosto de viver’. O ‘Narciso’ talvez seja um filme revolucionário porque durante 90 minutos você vê pessoas pretas retintas e, após esse período, nenhuma delas morreu. Isso é algo raro no cinema brasileiro. É quase como um novo manifesto 25 anos depois do ‘Dogma Feijoada’. Eu só estou dizendo que ‘quero viver’, e não no Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador ou em Recife, mas na tela do cinema brasileiro. Era um pouco desse lugar que eu queria explorar com nossas crianças pretas: ‘Eu quero viver, eu gosto de viver’. É tipo o Vinicius Jr.: ‘Eu quero viver e jogar bola, só isso. Driblar os perigos da vida e continuar aqui’”, completou.
Inspirado no mito grego homônimo, “Narciso” explora a jornada de um jovem negro (Arthur Ferreira) e órfão que, para conseguir viver em uma família rica e branca, é submetido a uma condição: ele jamais poderá ver sua imagem refletida. Ao aceitar, o protagonista passa a enfrentar um dilema entre aqueles que o acolheram e a saudade do lugar onde cresceu, precisando descobrir quem ele é e o que realmente importa.
Além de Arthur, o elenco conta com a presença de diversos outros talentos, como Seu Jorge, Bukassa Kabengele, Faiska Alves, Juliana Alves, Levi Asaf, Ju Colombo, Diego Francisco, Isadora Iglesias, Fernanda Nobre e Larissa Nunes.
Produzido pela Buda Filmes, “Narciso” tem roteiro assinado pelo próprio Jeferson De, ao lado de Cristiane Arenas.