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'Tia Virginia' é 'um prêmio às mulheres que tiveram seus sonhos retidos', diz Vera Holtz
Ovacionado em Gramado, longa finaliza um projeto de duas décadas do diretor Fabio Meira

Nesta quinta-feira (9), depois da estreia de produções nacionais de grande sucesso recente, como "Nosso Sonho", "Meu Nome é Gal" e "Mussum, O Filmis", as telonas recebem mais um longa-metragem brasileiro que promete cativar o público: o premiado "Tia Virginia".
Estrelado por Vera Holtz, o filme levou a melhor em seis categorias do Festival de Cinema de Gramado deste ano, incluindo a de Melhor Atriz, vencida pela protagonista. Na trama, Virginia é uma mulher de 70 anos que jamais se casou ou teve filhos, e foi conduzida pela vida a cuidar dos membros mais velhos da família.
A história acompanha Virginia e suas duas irmãs, Vanda (Arlete Salles) e Valquíria (Louise Cardoso), enquanto o trio se prepara para celebrar uma típica - e inesquecível - noite de Natal.
A pré-estreia carioca do filme, que ostenta um elenco estrelado, aconteceu no final do mês passado. Antes da exibição do longa, as três atrizes e o diretor da produção, Fabio Meira, concederam entrevistas exclusivas à Ingresso.com.
Durante o bate-papo, Meira contou que realizar "Tia Virginia" é algo que ele almeja desde 2003, há duas décadas. Ele começou a fazer anotações e recordar encontros familiares nessa época e, nos últimos dez anos, vem trabalhando no roteiro do longa, dedicado a duas tias do cineasta.
Fabio também falou sobre a direção de arte, assinada por Ana Mara Abreu e laureada em Gramado. Promovendo um verdadeiro mergulho numa tradicional "casa de vó", o cineasta fez uso de itens especiais para compor a atmosfera pretendida:
"Aquela foto em preto e branco é minha, são os meus antepassados. Aquela criança na foto, que vai fazer 98 anos, é a minha madrinha. O filme tem uma mistura de objetos pessoais, ou seja, não só o filme é baseado nas histórias da minha família, como eu levei para o filme essas memórias na forma de objetos", explicou Meira.
Além dos cenários acolhedores e nostálgicos, o desempenho de Vera Holtz no papel principal também impressiona. Fabio revela que a atriz não foi sua primeira escolha. No entanto, Tony Ramos, com quem o cineasta trabalhou em outro projeto, o ajudou a tomar essa decisão:
"Eu conversava muito com o Tony à noite, enquanto a gente esperava o set ficar pronto. E eu contei a história pra ele e ele falou: ‘Fabinho, sabe quem faria isso bem mesmo? Vera Holtz’". Três anos depois, quando Fabio encontrou a atriz na pré-estreia de "As Duas Irenes" (2017) - longa do qual Meira também esteve à frente -, ele enfim decidiu convidá-la para o projeto.

Arlete Salles, que revelou profunda admiração por Vera Holtz, contou que a presença da atriz no elenco foi o que a fez aceitar participar do filme:
"Eu tinha acabado de protagonizar com ela um seriado pra Globo, escrito pelo Miguel Falabella, que se chamava 'Eu, a Vó e a Boi'. E a gente se divertiu muito, foi uma delícia. A Vera é uma mulher corajosa, forte e alegre, né? Eu não me lembro de ter visto a Vera carrancuda nunca. Ela sempre procura o lado bom, o lado iluminado da vida. Então, eu falei: 'O quê? Outra vez eu vou reencontrar a Vera? Vamos trabalhar juntas de novo?' Sim, sim, sim. Imediatamente, eu disse sim", contou a atriz que, aos 85 anos, seleciona com rigor suas empreitadas no cinema.
"Tia Virginia" fala sobre pessoas, principalmente mulheres, que abdicam de suas vidas para seguir caminhos de cuidado e servidão, necessitando abrir mão, muitas vezes, de seus desejos e objetivos pessoais. O assunto é tão atual que, na edição do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) deste ano, foi o tema a ser desenvolvido pelos estudantes na redação do certame.
O filme de Fabio Meira dá luz a essa e a tantas outras mulheres, cujo sacrifício torna-se invisível até mesmo para a própria família, além de inflamar uma discussão sobre seu lugar na sociedade e incentivar a libertação desse sistema. Vera Holtz, que brilhantemente traduz as nuances da personagem-título, celebrou seu "final feliz":
"Saí premiada de Gramado!", brinca, ao relembrar o kikito que recebeu na ocasião. "E isso premia a Virgínia também, né? Uma mulher que ficou presa. É um prêmio às mulheres que tiveram seus sonhos retidos! Ela é premiada e vai pra outro lugar. A mensagem que fica é: 'Hei, você que ficou e não conseguiu realizar o teu sonho, vem aqui, a gente vai te dar! De alguma forma, simbolicamente, a gente deu uma noite especial pra ela", concluiu Holtz.
Louise Cardoso disse que, além da identificação instantânea que as situações e personagens de "Tia Virginia" são capazes de gerar no público, quem esteve diretamente envolvido no projeto também pôde usá-lo como ponto de partida para diversas reflexões:
"Nas cenas mais pesadas, ficava todo mundo tenso. A produção tensa, a equipe tensa. Mas é importante que as pessoas saibam que o filme mexe com a gente positivamente, entende? Vai fazer você se questionar, pensar, vai fazer você lembrar da sua avó e avaliar as suas relações familiares. E a forma que você se identifica, te acalenta", explicou a atriz.
O elenco de "Tia Virginia" ainda é formado por Antonio Pitanga, Vera Valdez, Amanda Lyra, Daniela Fontan e Iuri Saraiva. O longa está em cartaz em salas selecionadas pelo país - garanta o seu ingresso por meio do nosso site ou app.
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