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Jottapê e Christian Malheiros falam sobre cultura periférica e representatividade, temas de ‘Sneaks’
Estrelas da série ‘Sintonia’ dão voz a tênis falantes na animação, que estreia nesta quinta-feira nos cinemas

Nesta quinta-feira (17), “Sneaks: De Pisante Novo”, animação dirigida por Chris Jenkins que também assina o roteiro ao lado de Rob Edwards (‘A Princesa e o Sapo’), enfim realiza sua grande chegada às telonas brasileiras.
O elenco da dublagem nacional do longa traz nomes de peso, como Jottapê e Christian Malheiros, estrelas de “Sintonia”, série de sucesso da Netflix. Eles emprestam, respectivamente, suas vozes a Téo, um tênis de grife que cai da caixa e precisa se adaptar à realidade das ruas; e Beto, um tênis de rua experiente que se torna seu aliado na jornada.

Em entrevista à Ingresso.com, a talentosa dupla refletiu sobre o vínculo com seus personagens e a maneira como o filme dialoga com suas vivências. Logo no início da conversa, Jottapê traçou um paralelo entre sua trajetória e a de Téo, ressaltando justamente as diferenças que os separam:
“Eu gosto sempre de comentar que ele tem uma trajetória ao inverso da minha, como Jottapê. Eu já vim da periferia e eu acabei naturalmente conhecendo esse universo. Já o Téo, fez o caminho oposto. Ele já veio de um lugar privilegiado, onde ele estava no topo da estante, e aí sim, conheceu um pouco sobre como funcionam as ruas”.
Christian, conhecido por participar de produções de profunda temática social, como “7 Prisioneiros” (2021) e “Sócrates” (2018), por sua vez, explicou que a construção de Beto não foi moldada por papéis anteriores, mas sim por sua própria realidade, marcada por uma infância à margem:
“Acho que não foram as vivências dos filmes que me fizeram trazer isso para esse projeto. Foram vivências pessoais que me impulsionaram a fazer todos esses filmes, na realidade. Sendo uma pessoa da periferia, acho que parte um pouco de mim (...) trazer isso pro Beto, fazer esse personagem é mais uma coisa que eu digo: ‘Nossa, que interessante!’, porque eu já lidei com temas sobre a cultura da periferia, sobre o jovem desse local (...) você está falando sobre o símbolo do hip-hop, do gueto e de várias outras coisas. É uma outra face que eu reparo o quanto nossa cultura é muito rica. A cultura do street, do skate – que também é muito forte nos Estados Unidos –, e nós aqui também temos nossos heróis nesse meio. Então, para mim, é um lugar de reafirmar o quanto que essa cultura, que por sua maioria é periférica, é rica para construção não somente do Brasil, mas do mundo todo”.
Em seguida, após ser questionado sobre a relação entre os tênis, a música e a cultura das ruas, Jottapê comentou sobre como esses elementos se tornaram parte essencial da identidade urbana, enfatizando o modo autêntico que eles se interligam dentro das comunidades:
“O hip-hop está muito entrelaçado com o basquete, né? E o basquete já tem muito essa cultura dos tênis, como o Michael Jordan, por exemplo. Então, acabou se conectando muito com essa cultura, pois o basquete é muito forte nas periferias dos Estados Unidos. Dessa forma, automaticamente, os jogadores começaram a usar esses tênis, virando referência. E as pessoas queriam ter os tênis que eles usavam, especialmente depois de começarem a colocar o nome deles nos tênis, o que tornou isso algo colecionável, cultural”.
Apesar de já terem se aventurado em diferentes áreas do audiovisual, tanto Jottapê quanto Christian Malheiros revelaram que “Sneaks: De Pisante Novo” representou um desafio inédito: foi a primeira vez que eles mergulharam de fato na dublagem de uma animação para os cinemas. No entanto, mesmo se tratando de uma experiência relativamente nova, cada um buscou levar ao estúdio uma forma própria de construir seus personagens apenas com a voz:
“Dublei algumas coisas quando eu era criança, mas nunca um desenho animado, foi a primeira vez. Eles [produção] me deixaram bem à vontade. Quando falaram comigo, não foi para um teste, foi um convite. Só deixaram bem claro que eles queriam que fosse minha voz para caracterizar o Téo. Eu só tentei trazer algo mais infantil em alguns momentos, indo mais para o tom agudo, mas sempre mantendo a essência mais rouca da minha voz”, compartilhou Jottapê.
“Cara, já tive [contato anterior com a dublagem] mas era um filme, não era animação. Acabou que não estreou, então assim, que vai ser lançado, esse [‘Sneaks: De Pisante Novo’] é a primeira experiência. Eu admiro muitos amigos dubladores, mas eu não busquei alguma referência porque eu falei: ‘Eu quero saber se eu realmente sirvo para isso’. Pois, se eu começar a imitar alguém, pode até sair bom e passar ileso. Agora, se eu chegar lá e tentar fazer, aí sim saberei se realmente consigo dar conta ou não. Então tentei me privar ao máximo de referências para realmente ter esse autoconhecimento. Foi meio que um experimento para mim”, contou Christian, posteriormente.
Sobre o processo de gravação, Jottapê destacou que, ao contrário de “Sintonia”, onde ele e Christian conviviam diariamente nos bastidores, em “Sneaks” foi completamente diferente, já que os dois gravaram em dias separados:
“Diferente de ‘Sintonia’, que a gente se via todos os dias gravando, nós não nos encontramos nesse projeto. Ele gravou em um dia e eu no outro - só vamos nos juntar mesmo na pré-estreia, para assistirmos. Então foi bem distinto”.
Na sequência, Christian completou dizendo que, embora não tenham contracenado diretamente desta vez, a longa parceria com Jottapê foi essencial para imaginar a dinâmica entre Beto e Téo:
“A gente tem memória afetiva, né? Trabalhamos sete anos juntos fazendo a maior série da Netflix no Brasil. Eu conheço muito ele, então em algumas situações eu já enxergava ali algumas coisas – conseguia entender mais ou menos como ele vai fazer. Essa conexão que a gente tem (...), por esse retrospecto, o trabalho, apesar de não ser fácil, fica mais tranquilo. Dá para imaginar um pouquinho ali o outro”.
Mesmo sendo uma animação voltada ao público jovem, “Sneaks: De Pisante Novo” não se limita apenas a entreter. Para Jottapê, o filme também propõe uma reflexão acessível e necessária sobre aquilo que realmente tem valor, muito além da aparência ou do consumo:
“O filme tem muitos pontos positivos, desde a animação e o roteiro, à mensagem que ele quer trazer. A gente não está apresentando simplesmente de um tênis que ganha vida e tudo mais, mas sim o que ele retrata. A mensagem que ele transmite é que existem muitas coisas mais importantes do que um bem material, do que estar no topo de uma estante, acho que é isso que o filme passa”.
Christian reforçou essa perspectiva, evidenciado como a escolha por uma estética vibrante e positiva é fundamental para auxiliar na ressignificação de temas muitas vezes marginalizados, como a cultura periférica em geral:
“Têm várias mensagens importantes, e eu gosto de ressaltar: é um filme colorido, e é isso que temos. Quando a gente vai tratar, por exemplo, o hip-hop, a cultura de rua, a favela e o funk – que são muito marginalizados até hoje –, temos conseguido desconstruir um pouco essa imagem. A partir do momento que você pega a visão desses espaços e coloca cor e música, você a torna um lugar real, palpável. Mostramos para essas gerações mais novas que vão assistir ao filme, de que nada disso é marginal, não é ilegal, feio. Muito pelo contrário, é rico, sabe? Esses movimentos forjaram muitas pessoas que a gente admira hoje, do rap, do trap... tudo vem daí, dessa herança coletiva. Então, acho que um filme assim é fundamental para a gente trazer isso para as pessoas entenderem e prestar atenção que não é tudo isso de ruim que apontam”.
Ao final, Christian projetou o efeito que “Sneaks: De Pisante Novo” deve causar nos espectadores. Para ele, a animação vai além da diversão ao criar um espaço de afeto e identificação, capaz de envolver diferentes gerações em uma narrativa leve e emocionalmente significativa:
“O público vai se emocionar, porque é uma relação muito bonita essa deles. O povo vai rir muito também. É um filme que assim, você sai com o coração quentinho. Se você quer ir lá e sair energizado, revigorado, sair bem, vá assistir ao filme. Os espectadores vão se sentir muito contentes, com a sensação de que assistiram um bom filme”, completou.

A trama de “Sneaks: De Pisante Novo” segue a jornada de Téo e Beca, que formam um par de tênis de grife e vivem protegidos em sua caixa. No entanto, após serem conquistados em um sorteio por Edson, um jovem humilde com o sonho de se tornar jogador de basquete, os tênis são roubados por um colecionador e acabam separando-se acidentalmente. Determinado a reencontrar seu par, Téo conhece Beto – um tênis de rua cheio de atitude –, e, juntos, embarcam em uma aventura repleta de surpresas pelas ruas de Nova York – garanta seus ingressos por meio de nosso site ou app.