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Jeferson De sobre a adaptação de ‘Quarto de Despejo’: ‘Os cinemas vão se transformar no quarto dela’
Diretor detalha como o filme recriou o espaço onde Carolina Maria de Jesus viveu e escreveu seu livro
Mais de duas décadas depois de retratar Carolina Maria de Jesus no premiado curta-metragem “Carolina” (2003), Jeferson De retorna à trajetória da escritora em uma produção ainda mais íntima e ambiciosa. Agora, o cineasta promete transportar o público para o ambiente onde nasceu o livro “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada”, acompanhando de perto o cotidiano, a escrita e as relações que moldaram uma das vozes mais importantes da literatura brasileira.
Em entrevista exclusiva à Ingresso.com, Jeferson explicou que sua principal expectativa com o lançamento é incentivar o público a conhecer a obra original, cuja perspectiva confrontou a imagem de prosperidade associada ao Brasil dos anos 1950:
“Eu só quero uma coisa: que ao final do filme, todos leiam o livro. Corram para a primeira livraria e o comprem ‘Quarto de Despejo’. Não há nada maior do que a obra da Carolina, do texto. Não há nada mais impressionante do que ler aquele diário, o que ela escreveu nos anos 1950, no Brasil, as contradições... sempre que ouvimos falar dessa época é algo muito positivo, né? O Brasil foi campeão da Copa do Mundo, tinha um menino chamado Pelé, Brasília seria inaugurada, o Cinema Novo estava surgindo, a Bossa Nova... um lugar maravilhoso, o ‘país do futuro’. Aí, ela [Carolina] vem dando uma porrada em tudo, falando: ‘Não, não!’ ao lado de São Paulo, uma cidade se industrializando...”.
Segundo ele, o projeto também representa um reencontro com uma figura decisiva em sua formação profissional, retomando uma relação iniciada no começo dos anos 2000:
“Para mim, tem um lugar muito especial que é revisitar o curta que eu fiz em 2003, pelo qual ganhei prêmios no Festival de Gramado (...) eu sempre falo que a Carolina me abriu portas para o cinema, então esse meu longa agora, passados mais de 20 anos, de certa forma, é meu agradecimento a ela, minha volta para onde tudo começou”.
Na nova produção, Jeferson disse ter procurado aproximar as pessoas ao ambiente no qual a autora registrava suas experiências, traduzindo seu dia a dia em um vasto acervo:
“É um filme muito pessoal nesse sentido. Eu queria entrar no quarto dela, vê-la escrevendo – e eu consegui realizar, filmar isso (...) você vai lá na intimidade, de quando nasce o livro, de que forma ele surgiu. E aí, é o meu olhar pessoal, muito único. Não é o último filme sobre o ‘Quarto de Despejo’, sobre a Carolina, mas é uma produção muito sincera. Nós dois somos amigos desde 2003, então, posso falar da minha amiga, sim, temos uma proximidade muito grande”.
A fidelidade da reconstrução foi atestada por Vera Eunice, filha da escritora, cuja reação ao visitar o cenário emocionou toda a equipe. Para Jeferson, esse espaço terá papel essencial na imersão proposta pelo longa:
“Quem me permitiu fazer o curta e o longa foi a filha, Vera Eunice, e uma das coisas mais lindas que aconteceu não foi registrado por nenhuma câmera, mas eu vou contar: a Vera chegou no estúdio, eu peguei na mão dela e entramos juntos no quartinho onde elas moravam. Ela começou a chorar lá dentro e pediu uma boneca que estava no cantinho, que a mãe dela tinha feito. Comecei a chorar também e ela falou: ‘Está exatamente como era o quarto que eu vivi’”. Quem nunca foi ao Rio com ‘Ainda Estou Aqui’? A Porto Alegre com os filmes de Jorge Furtado? É incrível, realmente um lugar especial onde eu posso contar a história da Carolina. Os cinemas vão se transformar no quarto dela”.
As gravações ainda promoveram encontros simbólicos entre diferentes gerações da literatura brasileira, incluindo uma participação da renomada Conceição Evaristo que proporcionou um dos momentos mais marcantes dos bastidores:
“Eu ainda pude contar com o privilégio de contar com algumas escritoras negras participando durante as filmagens. O mais impressionante foi ver Conceição Evaristo conversando com Carolina na minha frente. Isso é realmente de arrebentar o coração, a mente, e falar: ‘Meu deus, o que é isso? O que estou vendo aqui?’. E isso está no filme, está registrado”, finalizou Jeferson.
Publicado em 1960, a “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada” retrata com autenticidade e força poética a vida na favela do Canindé, na cidade São Paulo, onde Carolina lutava diariamente para sustentar a família. Com apenas dois anos de educação formal, a autora vendeu mais de um milhão de exemplares e teve seu material traduzido para 14 idiomas, se tornando a primeira escritora negra brasileira a alcançar reconhecimento internacional.
Produzida por Move Maria, Raccord Produção e Buda Filmes, em parceria com a Globo Filmes, a cinebiografia ainda conta com outros grandes nomes em seu elenco, como Raphael Logam, Clayton Nascimento, Liza Del Dala, Carla Cristina, Ju Colombo, Jack Berraquero, Alan Rocha, Fábio Assunção e Thawan Lucas.
O roteiro de “Carolina Maria de Jesus” é assinado por Maíra Oliveira (‘A Magia de Aruna’). Demais detalhes, como sinopse oficial ou data de estreia nos cinemas, ainda não foram divulgados.