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Jeferson De explica a origem do ‘Dogma Feijoada’: ‘Queria protagonizar minha história no cinema’
Manifesto lançado pelo cineasta impulsionou a transformação do audiovisual negro no Brasil
Poucos diretores brasileiros tiveram um papel tão decisivo na transformação da representação negra no audiovisual quanto Jeferson De. Responsável por obras como “Bróder” (2010) e “M8 – Quando a Morte Socorre a Vida” (2019), ele consolidou uma trajetória marcada pela valorização da comunidade negra e pelo questionamento das estruturas historicamente predominantes no cinema nacional.
Em uma entrevista exclusiva à Ingresso.com, Jeferson refletiu sobre seu pioneirismo enquanto cineasta negro e os impactos dessas ideias em sua carreira:
“Quando cheguei na Universidade de São Paulo, foi um lugar impressionante, não só de estudo, mas de pesquisa também. Foi o momento em que me perguntei: ‘Por que só os cineastas brancos contam histórias sobre os pretos?’ Eu não conhecia ninguém que tinha feito filmes assim no Brasil. Solicitei uma bolsa de iniciação científica para falar: ‘Cadê esses caras? Não é possível que eu seja o primeiro’ – e realmente eu não era. Tinham Antônio Pitanga, Waldir Onofre, Zózimo Bulbul... fui conhecendo todos esses artistas negros”.
A pesquisa o levou a refletir sobre o modo como figuras negras eram tradicionalmente representadas nas produções nacionais, motivando uma revisão crítica dessas obras:
“Ao mesmo tempo, desenvolvi um senso crítico em relação ao Cinema Novo, às Chanchadas, que não nos incluíam como sujeitos da história. Era sempre um homem branco em relação a nós. Os personagens eram sempre homens brancos como sujeito e nós, negros, como objetos dessa ação, com raríssimas exceções. Aí, fui estudando esses filmes e questionando-os”.
Jeferson explicou que essas indagações acabaram servindo de base para a elaboração de “leis” que propunham novos caminhos para o audiovisual no país e, posteriormente, foram reunidos no que ele chamou de “Dogma Feijoada”:
“Durante essa bolsa, me lembro de debater com o Carlos Calil, professor que me dava aula de legislação, e ele falou: ‘Se você não concorda com o que o cinema brasileiro faz em relação aos negros, qual é a sua? O que rege esse tal cinema negro que você está falando?’ A partir daí, de uma maneira muito ousada e quase irresponsável, escrevi sete leis do que deveria ser o cinema negro brasileiro. Inicialmente, se chamava ‘Gênese do Cinema Negro Brasileiro’, mas, nesse mesmo período, Lars von Trier e toda sua trupe de amigos lá na Dinamarca estavam elaborando o ‘Dogma 95’. Então, carinhosamente, nós batizamos de ‘Dogma Feijoada’, em 1999 para 2000. Na minha opinião, talvez tenha sido um dos documentos, dos manifestos, mais importantes feito por um grupo de artistas negros – e eu estava ali no meio, ao lado de outros colegas como Daniel Santiago, Noel Carvalho, Billy Castilho, falando sobre esse tal ‘Dogma Feijoada’, que nada mais era do que ‘eu quero ser protagonista da minha história no cinema nacional”, disse Jeferson.
O DOGMA FEIJOADA
1 | Direção: O filme deve ser dirigido por um realizador negro.
2 | Protagonismo: O personagem principal precisa ser negro.
3 | Temática: O enredo deve estar diretamente relacionado à cultura e à realidade do negro brasileiro.
4 | Produção: O filme deve ter um cronograma exequível, com foco em produções rápidas e urgentes.
5 | Estereótipos: Representações estereotipadas, sejam elas negras ou não, são totalmente proibidas.
6 | Roteiro: A narrativa deve privilegiar o negro comum brasileiro.
7 | Abordagem de personagens: Super-heróis ou bandidos devem ser evitados, abrindo espaço para a humanidade e complexidade de histórias cotidianas.
O diretor ainda contou como converteu os princípios do manifesto em ações concretas ao longo da carreira, relembrando seus primeiros trabalhos, o reconhecimento em festivais e a influência exercida pelo icônico Cacá Diegues em sua formação:
“De 2000 até aqui, muita coisa aconteceu e, obviamente, fui muito motivado por esse ‘Dogma’, de tornar essa discussão pública. Foi muito importante na minha história pois era o momento em que eu não estava somente escrevendo minha teoria, mas que eu também estava tornado ela em prática. Acabei deixando a faculdade para fazer os curtas com o edital da Petrobras e ganhei o Festival de Gramado com o curta ‘Carolina’ – que coincidente estou dirigindo o longa agora. Conheci o Cacá Diegues, que talvez fosse o cineasta mais importante dessa relação entre negros e cinema, com histórias como ‘Xica da Silva’, ‘Quilombo’, ‘Ganga Zumba’ e tantos outros. A gente debatia muito, sempre conversávamos – e divergíamos –, sobre essa questão. Debater e aprender com ele era sempre um prazer muito grande. Ele impactou muito minha história, a ponto de ele se tornar o produtor do meu primeiro longa”, completou.
Adaptado do livro “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada”, “Carolina Maria de Jesus”, próximo longa de Jeferson De, promete abordar não apenas as dificuldades enfrentadas pela personagem-título e seus filhos, mas também a genialidade, coragem e paixão pela escrita que a transformaram em um dos maiores símbolos da literatura no país.
Publicada em 1960, a obra retrata com autenticidade e força poética a vida na favela do Canindé, na cidade São Paulo, onde Carolina lutava diariamente para sustentar a família. Com apenas dois anos de educação formal, a autora vendeu mais de um milhão de exemplares e teve seu material traduzido para 14 idiomas, se tornando a primeira escritora negra brasileira a alcançar reconhecimento internacional.
Produzida por Move Maria, Raccord Produção e Buda Filmes, em parceria com a Globo Filmes, a cinebiografia ainda conta com outros grandes nomes em seu elenco, como Raphael Logam, Clayton Nascimento, Liza Del Dala, Carla Cristina, Ju Colombo, Jack Berraquero, Alan Rocha, Fábio Assunção e Thawan Lucas.
O roteiro de “Carolina Maria de Jesus” é assinado por Maíra Oliveira (‘A Magia de Aruna’). Demais detalhes, como sinopse oficial ou data de estreia nos cinemas, ainda não foram divulgados.