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Como Silvio Santos ajudou 'Besouro Azul' a se tornar algo tão próximo da cultura brasileira?
Referências vistas no longa foram trazidas para o nosso país graças à insistência do dono do SBT

[CUIDADO! ESTE TEXTO CONTÉM SPOILERS DE "BESOURO AZUL"]
Que "Besouro Azul" marca a estreia da brasileira Bruna Marquezine em Hollywood, você provavelmente já sabe. As prévias do filme fazem questão de enfatizar a participação da atriz no longa, uma vez que ela, além de desempenhar com maestria o papel de coprotagonista, já é motivo suficiente para incentivar a ida ao cinema por parte de seus conterrâneos.
A latinidade presente na produção, cujo núcleo familiar mexicano-americano rouba a cena, também gera identificação por parte do público nacional. Embora passível de problematizações por conta do reforço de alguns estereótipos, quem não tem um tio parceiro ou uma avó desbocada como os Reyes, que atire a primeira pedra.
A verdade é que a fórmula de "Besouro Azul", em cartaz nos cinemas, revela inúmeras características que são caras a nós, brasileiros. E algumas delas só fazem parte da nossa cultura graças a um dos maiores comunicadores do país e sua admirável insistência: ele mesmo, Senor Abravanel, mais conhecido como Silvio Santos.
SILVIO SANTOS CORREU PARA QUE "BESOURO AZUL" PUDESSE VOAR!

Quem já assistiu ao filme do super-herói vivido por Xolo Maridueña, sabe que ele está recheado de referências a clássicos da televisão mexicana, como a novela "Maria do Bairro" e "Chapolin Colorado", série humorística criada e estrelada por Roberto Gómez Bolaños.
"Y a mucha honra, María la del Barrio soy", cantarola a jovem Milagro, personagem de Belissa Escobedo, durante o filme, citando a canção-tema do melodrama estrelado por Thalia. O super-herói colorado também tem seu lugar ao sol, como uma espécie de espelho sobre a coragem e autenticidade do protagonista da DC.
É interessante observar a empolgação do público brasileiro diante de tais referências, mesmo que elas não sejam originalmente nacionais. Contudo, o sucesso que esses e outros produtos mexicanos fizeram por aqui, ajudaram a moldar a cultura do nosso país.
De acordo com Rubens Passaro, gerente comercial do Grupo Silvio Santos que compartilhou parte da história em sua conta do LinkedIn, foi o "patrão" que o mandou para a Televisa em setembro de 1983, para que ele fizesse um estágio na maior fábrica de novelas do México, e pudesse adquirir textos desenvolvidos pelos melhores autores do país.
Durante sua estadia por lá, Rubens recebeu uma ligação que mudaria os rumos do SBT (na época, TVS) e do imaginário popular brasileiro para sempre:
"Rubinho, eu acabei de assistir a uns 5 minutos de um programa chamado 'El Chavo'", começou Silvio Santos ao telefone, referindo-se ao nome original do seriado "Chaves". "Assiste aí e vê o que você acha, e procura o Bolaños pra ver se ele vende os direitos pra nós", relatou Rubens, durante entrevista ao canal do YouTube Fórum Chaves, em 2021.
Passaro comenta que achou o programa extremamente datado, além de condenar a qualidade da imagem: "Parecia que tinham lavado aquelas fitas no tanque". Mesmo desacreditado, ele se encontrou com o intérprete do Chaves na casa do artista que, segundo ele, o recebeu da melhor forma possível.
Entretanto, Bolaños não era o detentor dos direitos do programa: Rubens precisaria entrar em contato com a área de contratos internacionais da Televisa para fechar o negócio. Antes de comprar uma leva de episódios por um valor bem abaixo do praticado no mercado, Passaro retornou a ligação a Silvio Santos: "Você tem certeza de que quer comprar isso? Está podre!", disse o estagiário.
Determinado, o dono do Sistema Brasileiro de Televisão não só autorizou a transação, como pediu para que Rubens trouxesse com ele quatro fitas, a fim de que fossem dubladas e exibidas no canal o mais rápido possível. Passaro desmente, assim, um boato antigo, que afirmava que os primeiros episódios do humorístico haviam chegado ao Brasil como um brinde cedido pela Televisa, após a compra de uma das novelas da emissora.
"Chaves", como foi chamado por aqui, ainda sofreu resistência por parte dos chefões da TVS, mas Silvio Santos enxergou a pureza de sua mensagem, a inocência das interpretações e como o humor dos nossos "hermanos" tem mais em comum conosco do que podemos imaginar. "Ele viu o potencial sucesso entre crianças e adultos", apontou José Salathiel, diretor do núcleo de dublagem da emissora à época e um dos responsáveis pela regionalização do seriado.
Assim, em agosto de 1984, o humorístico foi ao ar pela primeira vez no Brasil, como parte do programa TV Pow, sob o comando de Paulo Barboza. "Depois de ver os números do IBOPE, não tiveram o que questionar", disse Rubens na mesma entrevista, relembrando o imbróglio entre os executivos do canal que não acreditavam no lançamento de "Chaves".
Embora os excêntricos e amados personagens, como a Bruxa do 71 e Seu Madruga, apareçam no programa de Bolaños mais popular do Brasil, "Chapolin" surgiu antes de "Chaves": o Polegar Vermelho apareceu numa esquete lançada em 1970 (dois anos antes do órfão morador da vila) e, em 1973, ganhou sua própria série.

Junto a "Chaves", o super-herói atrapalhado é um ícone da cultura pop latino-americana que impacta gerações brasileiras há mais de três décadas, e ambas as séries chegaram ao Brasil por meio do SBT e da "teimosia" de Silvio Santos. Em 2018, a Globo passou a ser dona dos direitos dos dois programas, exibindo-os no canal pago Multishow.
Chapolin é, além de um ídolo da TV, uma inspiração para o Besouro Azul que vemos hoje nas telonas, fazendo com que o filme converse ainda mais com o público do nosso país:
“Não sou mexicano, mas cresci vendo televisão, filmes e músicas do país. E, embora tenhamos vivido a quilômetros de distância, algo que o roteirista [Gareth Dunnet-Alcocer] e eu descobrimos é que crescemos assistindo a ‘Chapolin Colorado’”, disse Ángel Manuel Soto, diretor do novo longa da DC.
“Isso é algo que, inevitavelmente, ultrapassa nacionalidades e fronteiras, então queríamos homenagear o personagem", concluiu o cineasta porto-riquenho [Via Reutir].
O elenco do longa, capaz de cativar os fãs brasileiros, ainda é formado por Susan Sarandon, Raoul Max Trujillo, Harvey Guillén e Elpidia Carrillo.
"Besouro Azul" estreou nos cinemas nacionais na última quinta-feira (17), e segue em cartaz nas telonas - garanta o seu ingresso por meio do nosso site ou app.
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